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Primeira gráfica de Cuiabá está abandonada e em ruínas

DESCASO COM A HISTÓRIA | 11/03/2018 09h 51min

O casarão do final do século XIX que deu origem à primeira gráfica e papelaria de Cuiabá, conhecida como Gráfica Pêpe, na Rua Sete de Setembro, hoje está em ruínas.

 

O imóvel histórico se destaca ao lado de outro que hoje sedia o Museu da Imagem e do Som (Misc), no Centro, em uma das primeiras ruas que originaram Cuiabá.

 

Nesta semana, a reportagem esteve no local e constatou que parte do telhado do imóvel já caiu. Do lado de dentro, algumas das paredes também já não existem mais. Nas que sobraram, as imensas rachaduras indicam que a casa pode ir ao chão a qualquer momento. Enquanto sua fachada dá a impressão de que vai desabar na cabeça de quem passar na frente.

 

Em seu interior, a reportagem ainda conseguiu ver, por meio uma fresta, que existem alguns armários e diversos entulhos.

 

Além disso, para evitar que moradores de rua e usuários de drogas invadam o local, foram colocados tapumes para bloquear as portas. No entanto, quase não existe mais madeira nas portas.

 

A casa, construída de adobe, não suporta mais os efeitos do tempo, das fortes chuvas e do Sol intenso de Cuiabá.

 

Segundo o historiador Aníbal Alencastro, um dos principais fatores que contribuíram com o atual estado do imóvel foi o asfaltamento das ruas do Centro.

 

“Lá pelos anos 60, o asfalto chegou a Cuiabá. As ruas antes eram de pedra em paralelepípedo. Aí aqueles tratores pesados abalaram a estrutura das casas”.

 

Dos anos 40 até a década 70, o imóvel atendeu os cuiabanos no Centro da cidade oferecendo desde cadernos fabricados pela gráfica, livros e até encomendas de convites de casamento.

 

Por ser a única papelaria da Capital, o local recebeu todo tipo de gente - de estudante a governadores.

 

Alencastro conta que o casarão foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1980.

Paredes cheias de histórias

 

Conforme Alencastro, antes de se tornar um comércio, o casarão pertenceu ao governador Generoso Ponce. Posteriormente, foi adquirido pelo coronel da Guarda Nacional, Avelino de Siqueira. Ele morreu em 1916.

 

“Depois que Avelino morreu, sua esposa Maria Luiza Hugueney de Siqueira abriu um gráfica onde eles editavam os livros. O lugar passou a se chamar Livraria Pêpe”, relata Aníbal.

 

Maria Luiza era de uma família de políticos que foram importantes para história da Capital. Ela teve nove filhos, sendo seis mulheres. Todos moravam em um sobrado atrás da gráfica e os dois imóveis eram interligados.

 

Além disso, a artista Zulmira Canavarros fundou o Mixto Esporte Clube na residência, em 1934, de acordo com o historiador.

 

“Existe uma ata da reunião que deu origem ao Mixto Esporte Clube, que aconteceu naquela casa”, afirmou.

 

A aposentada Rita Bezerra Esteves, de 85 anos, cresceu frequentando a papelaria. Desde muito pequena ela morou no Centro da cidade e sua família tinha uma grande amizade com os proprietários.

 

“Era uma movimentação muito grande. Fazia encomenda de casamento, de tudo. Ali fazia de tudo. Era uma livraria e papelaria. Não existia nada, era só essa, não tinha outra. Então reunia todo mundo para comprar, fazer encomendas, tipografia”, relembra Dona Rita.

 

Gilmar Epifânio da Silva, que tem um comércio em frente ao casarão, conta que costumava fazer compras na papelaria quando era criança, aos sete anos.

 

"Meu pai mandava eu comprar coisas lá. Quando eu era criança, vinha aqui passear, era pedra canga ainda. Não tinha asfalto. Isso 50 anos atrás", relembra o comerciante.

 

Apesar da grande quantidade de clientes, era um comércio familiar e possuía apenas um funcionário. Quem realmente tocava a gráfica eram as filhas de Maria Luiza: Pêpe, a mais velha, e a Analia, que veio depois.

 

“As filhas faziam os envelopes, cada detalhe dos cartões. Não havia funcionários. Eu me lembro só de um, que se chamava Joaquim. Depois a Analia veio aqui e convidou o meu neto Luciano para trabalhar com eles. Ele trabalhou muito tempo ali”.

  

No entanto, ainda era a mãe que tinha a última palavra sobre os negócios da família.

 

“Ela que mandava na papelaria. Se ela não quisesse, não faziam. Por exemplo, eles faziam cartões de casamento muito bonitos. Aí, se ela não gostasse, mandava rasgar tudo”, disse Rita.

 

“Eu morria de medo. Meu pai mandava eu ir lá comprar alguma coisa, mas eu não ia, não”.

 

Quando Maria Luiza morreu, em 1964, as duas filhas mais velhas ficaram responsáveis pela gráfica.

 

“Logo que a mãe morreu, elas que tomaram conta. Reformou, ficou bonito. Essa fachada ficou linda toda pintada. Elas trabalhavam muito. Eram muito queridas”.

A boa fama das filhas chegava até em pessoas que não as conheciam, como foi o caso de Gilmar.

 

"Eu não cheguei a conhecer a Dona Pêpe, mas sei que esse casarão ainda é da família. Ela que atendia as pessoas. Eu só sei que ela era uma pessoa muito querida na época. Foi muito dedicada no trabalho".

 

Depois disso, os netos também passaram a trabalhar na papelaria, contudo durou pouco. Segundo Dona Rita, após a morte de Analia, ninguém da família se interessou em dar sequência ao negócio. Isso resultou no seu fechamento por volta de 1970.

 

Rita mora em frente à antiga gráfica desde 1962. Ela é a moradora mais antiga do Centro e viu diversas mudanças acontecerem naquela região.

 

“Teve uma época em que a casa passou a ter morador de rua, tinha de tudo. Eles faziam o que queriam ali. Depois que a base da Polícia Militar chegou, acabou isso. Eles não vêm mais me atormentar. Os policiais não deixam”, expôs.

 

A aposentada também presenciou a mudança na arquitetura das residências, conforme o tempo foi passando.

 

“Antigamente o povo fazia as casas pregadas com a do vizinho. Essas casas também eram cheias de portas e janelas. Eram enormes. Hoje em dia não é mais assim”, aponta Rita.

 

Ela lamenta o fato de que essas construções antigas estão se desfazendo ao longo dos anos. Além de se mostrar preocupada com a perda histórica que é para Cuiabá.

 

“Essa casa também vai cair, vai virar um grande terreno. Isso se não cair em cima de alguém. A parede já está quase se separando do resto da casa. Essas casas têm muita coisa para contar”, declarou a moradora.

 

Já o comerciante considera que a necessidade de restauração do imóvel é essencial para a história de Cuiabá.

 

"Eu acredito que deveria reformar esses casarões antigos porque são muito bonitos. Eu creio que o poder público tem feito o seu trabalho, mas de uma forma lenta. Eu acho que é muito importante ter esses casarões, que a cidade conserve seu patrimônio histórico", finalizou.

 

O outro lado

 

Apesar do que foi observado pela reportagem, o Iphan alegou não haver nenhum risco de ruína ou desmoronamento do casarão. Segundo a assessoria, o proprietário do imóvel solicitou uma vistoria em dezembro de 2017.

 

Durante a vistoria, a equipe registrou danos causados pela infiltração e o precário estado de conservação. Diante disso, o dono foi notificado a realizar reparos como substituição de calhas e e telhas. Conforme o Iphan, a manutenção foi feita logo depois.

 

O instituto também afirmou que o local não está abandonado, pois uma família está morando na casa nos fundos. 

 

Apesar de ser uma área tombada, a assessoria revelou que o proprietário do imóvel é o responsável pela conservação do casarão e não existe nenhum projeto de restauração.adin (Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal). As informações são do jornal O Estado de S. Paulo. (Com Estadão Conteúdo)

Fonte:   Midia News

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